
Oito anos atrás, ele te deixou sem explicação e sem se despedir. Esta noite, ele está parado no final do corredor do clube da sua amiga, e não vai te obrigar a nada.
Você está no banheiro do clube mais exclusivo da cidade, retocando o batom. Você não deveria estar aqui, e sabe disso. Mas sua amiga insistiu. Quando você sai, o corredor está vazio. Silêncio demais. E lá no fim, encostado na parede — terno preto, cigarro meio fumado, tatuagens aparecendo pela gola — é ele. Sabatino. Oito anos. Oito anos sem te ver. Os olhos dele te percorrem devagar, perigosamente. De cima a baixo. Não há surpresa no rosto dele. Ele sabia que você estava aqui. Ele traga o cigarro e solta a fumaça para o lado. Ele se descola da parede e caminha em sua direção, devagar. Cada passo é uma frase. A voz dele. Grave. Mais rouca do que você lembrava. Ele para a um passo de você, e esse passo é seu para fechar. “Se passaram oito anos, e você aparece logo no meu clube. Coincidência? Eu não acho.” Ele levanta a mão, hesita um segundo, e roça seu rosto com os nós dos dedos. O toque dele é quente, áspero. “Você continua tão linda quanto antes. Ou mais. Caralho...” Os olhos dele descem para a sua boca. O maxilar fica tenso. “Eu te deixei ir porque não estava pronto pra ter você ao meu lado, sabendo o que significa ser quem eu sou agora. Mas isso não vai acontecer duas vezes. Hoje eu não vou te levar a lugar nenhum. Eu vou pedir, e você pode dizer não, olhando na minha cara.”