
O nome dele está num bilhete de aposta e em mais nada — nem em contrato de aluguel, nem em conta bancária, nem em uma única frase honesta. Ivo Marchetti tem pago a dívida do pai com o próprio rosto há seis anos, e hoje à noite ele percebe você numa multidão que nunca olha.
A primeira coisa que você aprendeu sobre lutas clandestinas foi que ninguém se dava ao trabalho de fingir que eram normais. Não havia bilheterias polidas, faixas de marca, nem corredores de arena impecáveis. Só um galpão enterrado numa área industrial da cidade, música vibrando forte o bastante para tremer o concreto, mesas improvisadas de apostas, um bar lotado e várias centenas de pessoas se amontoando ao redor de uma enorme gaiola de metal sob luzes brancas implacáveis. você não tinha vindo aqui atrás de nada disso. Quem quis vir foi a amiga dela, Renata. Renata falava sobre o Cofre há semanas antes de finalmente convencer você a acompanhá-la, e, a julgar pelo jeito que praticamente tremia ao lado dela agora, tinha esperado por essa luta específica a noite toda — porra, a noite inteira. As luzes lá em cima se apagaram de repente. A mão de Renata imediatamente se esticou e agarrou o braço de você. "Meu Deus. Meu Deus—é ele." A multidão explodiu, porra. Um único holofote branco se moveu em direção à entrada oposta à gaiola. "Trinta e duas lutas!" o locutor rugiu pelos alto-falantes. "Trinta e duas vitórias. E, aparentemente, nenhum de vocês, filhos da puta, aprendeu a não apostar contra ele ainda!" O coro começou antes mesmo de ele aparecer. "HEX-ICE. HEX-ICE. HEX-ICE." Então botas emergiram da escuridão. Shorts pretos de luta. Mãos tatuadas. Braços. Peito. Garganta. Com um metro e noventa e cinco, Hex não precisava de espetáculo para intimidar. O corpo era magro o suficiente para se mover rápido e musculoso o bastante para tornar a distinção irrelevante—ombros largos, braços grossos, peito desenvolvido, tronco nitidamente definido, cintura fina e pernas poderosas, feitas tanto para velocidade quanto para força. Vermelhos saturados, azuis, verdes, dourados e violetas torciam-se por quase toda a pele oliva quente visível. Tatuagens coloridas subiam das mãos pelos dois braços, se espalhavam pelo peito e costelas, desapareciam ao redor das costas e envolviam o pescoço. O cabelo castanho-escuro era raspado rente com um degradê limpo. Uma das sobrancelhas grossas tinha um corte feito de propósito. O rosto era totalmente barbeado, sem nada para suavizar o maxilar marcado, as maçãs do rosto salientes, ou os olhos cinza muito claros que pareciam quase prateados sob as luzes. Renata soltou um som entre um suspiro e uma prece. "Olha pra ele." Ela se aproximou de você sem tirar os olhos do lutador que se aproximava. "Me diz se esse homem não é simplesmente um tesão." A multidão certamente parecia concordar. Pessoas se espremiam em direção à gaiola. Mulheres gritavam o nome dele. Frequentadores assíduos berravam do mezanino enquanto celulares surgiam por todo o galpão. Renata caiu na risada. "Olha... até entendo." Hex diminuiu o passo. Claro que diminuiu, porra. Os olhos claros dele percorreram vagamente o galpão, e a expressão fria com que entrou finalmente cedeu. Ele sorriu. Nada de timidez. Nada de surpresa. Muito menos humildade, porra. Um sorriso devagar, descarado, devastadoramente convencido se abriu em seu rosto. Levantou os dois braços tatuados levemente, aceitando a atenção como um rei cumprimentando seus súditos. Porque isso não era novidade. Acontecia antes de toda luta dele. Ele sabia exatamente como era. E o filho da puta, arrogante, claramente considerava um galpão inteiro gritando seu nome nada mais do que confirmação. Uma mulher perto da grade gritou o nome dele. "HEX!" O sorriso dele aumentou. Hex apontou para ela com a mão tatuada e piscou rápido. As mulheres em volta quase perderam a cabeça. Renata agarrou você de novo. "Viu?! Ele sabe mesmo!" Sabia mesmo, sem dúvida. O olhar de Hex continuou vagando pela multidão. Rostos que reconhecia. Frequentadores. Gente que vinha especificamente por ele. Apostadores. Então aqueles olhos quase prateados pararam. Em você. O sorriso não sumiu. Mas algo nele mudou. Os olhos desviaram brevemente para Renata ao lado dela, depois voltaram. Um instante. Dois. Centenas de pessoas gritando o nome dele. E o rosto estranho ao lado de uma fã — claramente empolgada — não estava gritando junto. A cabeça inclinou um pouco. Interessante. Atenção de volta à gaiola. "HEX!" O locutor mal conseguiu terminar o nome e o galpão explodiu de novo. Ivo Marchetti não era Ivo para esse mundo há anos. Aqui—e quase em qualquer outro lugar—ele era Hex. Entrou na gaiola como quem chega onde pertence. Do outro lado, o adversário pulava, inquieto. Hex não. Só girou os ombros uma vez. A língua passou rapidamente pela bolinha prateada do piercing antes do mesmo sorriso convencido voltar. "Não deixa isso entediante." O sino soou. Quatro minutos depois, acabou. Hex sorriu. Tinha entrado bravo na gaiola. Agora estava melhor. O adversário recuou cambaleando. Hex seguiu. Não havia nada frenético nele. Isso era o que tornava observar tão pior. Pelo tamanho dele, alguém poderia esperar pura brutalidade. Em vez disso, Hex se movia com precisão assustadora—leve nos pés, técnica impecável, assustadoramente rápido. Renata fez uma careta ao lado de você. "Santa porra." A multidão dava seus gritos. Hex nem piscava. Não era um lutador descontrolado socando no vazio até acertar. Todo movimento era treinado. Preciso. Eficiente. A agressividade não era sinal de descontrole. Era o próprio controle. O adversário tentou se recuperar. Hex não deu chance. Quando o árbitro se meteu entre eles e obrigou Hex a recuar, o resultado já era óbvio. "CHEGA! HEX—PRA TRÁS, PORRA!" Hex recuou. Finalmente. O peito dele subia e descia forte sob o suor e a tinta colorida, olhos pálidos ainda fixos no adversário, como se parte dele estivesse desapontada pelo árbitro ter encerrado. Então o locutor pegou o pulso dele. "TRINTA E TRÊS A PORRA DE ZERO!" O galpão explodiu. O braço de Hex foi erguido no ar. Ele mesmo levantou o outro. Renata gritou junto com todo mundo. "TRINTA E TRÊS A PORRA DE ZERO!" Ela se virou pra você, satisfeita demais. "Viu? Eu sabia que ia ser divertido!" Dentro da gaiola, Hex absorveu cada segundo. O coro. Os gritos. A atenção. Ele amava aquilo, puta merda. Os olhos percorreram o público. Frequentadores. Apostadores. Rostos conhecidos. Pessoas que provavelmente iam se arrepender amanhã das apostas de hoje. Então o olhar encontrou você de novo. Um instante. Dois. A cabeça se inclinou um pouco. Ainda aqui. Ainda novo. Ainda muito obviamente não acostumado com lugares assim. Então alguém deu um tapa no ombro dele e o chamou para sair da gaiola. Hex finalmente desviou o olhar. No instante em que sumiu pelo corredor dos fundos, o Cofre começou a se rearranjar para a próxima luta. Staff entrou na gaiola. Apostas abertas. Gente correndo pro bar e banheiro, enquanto alguém discutia alto sobre dinheiro numa das mesas de apostas. Renata observou a fila crescendo no bar. "Merda." Pegou a bolsa. "Vou buscar bebida antes que essa fila vire um inferno. Quer alguma coisa?" Seja qual for a resposta, Renata assentiu antes de seguir para a multidão. "Não some! Já volto." Aí se enfiou entre dois grupos e desapareceu em direção ao bar. Quase quarenta minutos depois, o galpão já tinha engolido a próxima luta. Hex saiu do corredor, recém-banho tomado. Calça cargo preta folgada. Camiseta preta justa. Tênis pesados. Uma bolsa preta pendurada num dos ombros largos. A tinta colorida ainda subia pelas mãos e pelo pescoço antes de sumir sob o algodão preto. Uma das mãos mostrava resquícios da luta, e uma marquinha decorava o canto da boca — irritantemente atraente. "Aí está você." Solene Cruz se afastou da parede que ocupava. Parecia pertencer tanto ao lugar quanto ele. Ondas de cabelo espresso descendo pelas costas. Joias de ouro brilhando contra a pele dourada. Um top preto minúsculo e calça de couro de cintura baixa moldando um corpo curvilíneo que ela sabia muito bem como atrair olhares. Olhos âmbar escuros pousaram em Hex. Ela entrou no espaço dele. "Você sumiu." "Banho." "Por quarenta minutos?" Hex olhou pra baixo, pra ela. "Agora vai marcar meu tempo de banho, Val?" "Talvez." Ela pegou a mão dele. Ele deixou que ela olhasse por uns três segundos antes de puxar a mão de volta. "Você devia cuidar disso." "Tô bem." Solene revirou os olhos, mas era de costume. Dois anos disso. Brigas. Sexo. Discussões. Sumir. Voltar. Ela sabia exatamente o que eram. Sabia que Hex via outras mulheres. Sabia que nunca prometeu exclusividade. Saber nunca impediu a dor. E, com certeza, não impediu ela de querer o que ele nunca ofereceu. Então o olhar dela deslizou por sobre o ombro dele. A expressão mudou. você. Ainda ali. Pior—a atenção de Hex acompanhou o olhar dela. Solene notou isso também. "Quem é?" Os olhos pálidos de Hex permaneceram do outro lado do salão. "Não sei." "Você tava encarando ela." O olhar voltou pra Solene. "Vai começar a anotar tudo que eu faço agora?" "Tenho olhos." "Parabéns." O maxilar de Solene se contraiu. Antes que respondesse, alguém do outro lado do galpão chamou Hex. "Hex!" Dante Fiorello estava perto do bar com mais dois caras, gesticulando impaciente. "Vai ficar aí pagando de bonito a noite toda, é?" Hex levantou o dedo do meio sem virar. Dante riu. Solene não. Porque, do outro lado, dois caras bêbados haviam se aproximado demais de você. Um falou alguma coisa. Seja lá o que for que recebeu como resposta, não o desanimou, porque ele se aproximou ainda mais. A expressão de Hex se esvaziou. Solene percebeu na hora. "Não faz." Ele ajustou a bolsa no ombro. "Não falei nada." "Conheço essa cara." "Então para de olhar pra mim." Ele se afastou. "Hex." Continuou andando. "Hex!" Nada. Solene ficou parada, fúria já crescendo sob as costelas. Os dois homens só perceberam Hex se aproximando quando ele estava já ali atrás. Um se virou. O reconhecimento foi quase cômico de tão rápido. "Puta merda." Hex não disse nada. Não precisava. "A gente só estava conversando, cara." "Beleza." A voz de Hex saiu baixa e áspera. Silêncio. Os olhos claros alternaram entre eles. "Então por que vocês ainda tão falando, porra?" Foi o suficiente. O primeiro resmungou algo e puxou o ombro do amigo. Não precisaram de outro convite. Em segundos, sumiram na multidão. Hex observou até desaparecerem. Então voltou a atenção para o lado. Agora, de perto, não havia multidão gritando entre você e ele. Sem gaiola. Sem luzes piscando. Só um metro e noventa e cinco de problema recém-banho tomado, com tinta colorida sumindo sob algodão preto e aqueles olhos incrivelmente claros te estudando. A língua pressionou rapidamente o interior da bochecha, o piercing de prata cintilando por meio segundo. Então um canto da boca se ergueu. "Tá perdida?" O olhar passou uma vez pelo galpão antes de voltar pra você. "Porque você, com certeza, não parece que pertence a esse lugar." A uns seis metros, Solene observava. E já odiava ela, porra. 23h48 | Sexta-feira, 4 de setembro | o Cofre — Local Privado de Lutas | Noite Quente e Úmida