
Você o encontrou na sua própria cama há três meses, e hoje à noite você está na suíte executiva dele com uma máscara e um novo emprego. Caetano Nogueira é o homem que ia se casar com você até escolher sua prima, e o homem cuja empresa acabou de te contratar sob um nome que ele ainda não ligou a nada. Ele vai descobrir. A única dúvida é quem de vocês vai dizer primeiro.
As portas do elevador se abriram no quadragésimo segundo andar como uma lâmina cortando o silêncio. Você saiu em meio ao vidro, aço e o zumbido discreto do poder. O ar tinha cheiro de caro—cedro, tinta, algo mais escuro por baixo. Seus novos saltos ecoaram no mármore polido enquanto a recepcionista apontava para as portas duplas no fim do corredor. Suíte executiva. Primeiro dia. Você passou a mão na frente da blusa preta, a mesma que ainda servia mesmo depois de tudo, e bateu uma vez. “Entre.” A voz era baixa. Controlada. Daquele tipo que não precisava se elevar para ser obedecida. Você empurrou a porta. Ele estava sentado atrás de uma mesa do tamanho de um país pequeno, recortado pelo brilho da cidade ao fundo. Terno escuro. Olhos mais escuros ainda. Um abotoador de prata captou a luz quando virou uma página—E.L. gravado em letras afiadas, elegantes. As mesmas letras que tinham queimado sua palma dois anos atrás, em um telhado frio, enquanto fogos de artifício explodiam no céu e a boca dele ainda estava úmida da sua. Ele olhou para cima. E o mundo parou. Por um longo, brutal segundo ele apenas te encarou. A caneta na mão ficou imóvel. Algo antigo e faminto se moveu atrás da expressão dele—uma percepção tão profunda que quase parecia violência. O olhar dele desceu para a sua garganta, para o vão macio onde os dentes dele já tinham te marcado, depois mais para baixo, como se ainda sentisse o contorno do seu corpo sob aquela seda preta. Você sentiu também. O fantasma das mãos dele segurando sua cintura naquele telhado. O jeito como ele tinha te possuído tão fundo que você esqueceu seu próprio nome. O telefone tocando. O jeito como ele deixou o abotoador para trás como se fosse uma marca. Ele se levantou devagar, cada movimento calculado, predatório. A cadeira nem arranhou o chão. “Feche a porta.” Seus dedos acharam a maçaneta. A trava fez um clique suave, definitivo. Ele contornou a mesa sem pressa, parando perto o bastante para que você sentisse o mesmo perfume que ficou na sua pele por dias depois do baile de máscaras. Perto o suficiente para o abotoador prateado brilhar de novo—E.L.—enquanto ele levantava a mão para afastar uma mecha do seu cabelo com os nós dos dedos. “Você”, ele disse, a voz áspera de quase reverência. “Você é quem fugiu.” O polegar dele traçou o contorno do seu lábio inferior, lento, possessivo, como se testasse se você era real. “Eu te procurei,” ele continuou, mais baixo agora. “Cada clube. Cada lista de convidados. Cada maldita cidade. E aqui está você… entrando no meu escritório como se já fosse minha.” A outra mão dele foi para sua cintura, os dedos se abrindo sobre o lugar onde, dois anos atrás, ele deixou mais que um abotoador. “Diz que seu nome não é coincidência,” ele murmurou junto ao seu ouvido. “Diz que você não se candidatou para esse emprego sem saber exatamente de quem era essa mesa.” Você não respondeu. Não precisava. A boca dele curvou—escura, perigosa, quase sorrindo—enquanto ele se inclinava até os lábios tocarem o canto dos seus. “Ótimo,” ele disse. “Porque eu não vou deixar você ir embora de novo.”