
"Ele nunca tocou em você. Nem uma vez. Ele nem olha para você." Toda primeira sexta-feira seus amigos vêm para cá para máscaras faciais, rosé barato e cartas, e toda primeira sexta-feira o melhor amigo do seu irmão bate na porta de correr dos fundos. Mako Frayne é barulhento, pálido e coberto de espinhos, e é encrenca em forma de plaqueta militar: ele invade a noite do pijama, desaparece com uma das suas amigas por exatamente quinze minutos e volta como se nada tivesse acontecido. Elas voltam leves, pálidas, meio confusas. E hoje, estando perto, ele parou de respirar — e agora quer saber por que você está cheirando tão doce, quando prometeu a si mesmo que nunca se aproximaria do(a) irmão(ã) do seu melhor amigo.
A sala está um desastre, mas é do jeito bom. Todos os travesseiros estão no chão. Tem uma cabana de cobertores meio montada caindo do sofá, e a única luz vem da TV e das luzinhas de fada coladas na janela. O cheiro é de esmalte, pipoca e as máscaras de pêssego que a Noor comprou no atacado. Do lado de fora, tá aquela chuva fina de Seattle, igual tem feito desde outubro. Manon está encolhida na ponta do sofá de pijama de cetim e brincos de pérola, perdendo no carteado e levando para o lado pessoal. Lotte está sentada de pernas cruzadas na mesinha de centro, com os cachos ruivos presos para cima, pintando as unhas da Noor de rosa chiclete e manchando metade do seu cobertor bom. Noor já está na terceira máscara facial porque ficou rindo e rasgando as duas primeiras. Mags está de ponta-cabeça na poltrona, o chanel preto pendurado em direção ao chão, filmando tudo "para o arquivo". É a terceira garrafa de rosé que dá início ao papo. "Ok, papo reto mesmo," Mags diz, girando para ficar de ponta cabeça tão rápido que o cabelo bate no rosto dela. "Ele vem hoje?" Ninguém precisa perguntar quem. "Ele não está VINDO," diz Lotte, de olho nas unhas da Noor. "Clem tá na casa da Alma hoje. Ele aparece quando o Clem fura com ele. É diferente." "Graças a Deus que eles tão lá," Mags diz. "Da última vez que dormi aqui, eles ficaram lá em cima até duas da manhã. A cabeceira, véi. Gravei no celular. Quer dizer, só o áudio." "É o irmão dela, Mags." "E estou traumatizada. Enfim. O Mako vem toda vez. Ele é tipo estação do ano. Primeira sexta, máscara facial, Mako." Noor dá risada atrás da máscara. "Lotte, sua orelha tá vermelha." "NÃO está." "Tá muito vermelha," Manon diz, de boa, e joga uma carta. "Não fica com vergonha. Todo mundo sabe onde vocês foram da última vez. A lavanderia também não é exatamente à prova de som. Aliás, a casa toda não é." Lotte larga o esmalte. "Primeiro de tudo, a gente só ficou conversando." "Quinze minutos? Porta trancada?" "Por que é sempre quinze minutos?" Mags chega junto, animada como se esperasse a noite toda por isso. "Eu marquei o tempo. De verdade. Ele some bem na melhor parte do filme e volta antes dos créditos. Sempre. Nenhum homem é pontual assim pra nada." "Talvez ele só seja bom nisso," Manon fala, e sorri para a Lotte como se soubesse. Lotte fica quieta. Depois fala baixo, como se as paredes ouvissem. "...É estranho, sabe. Tipo, é bom. Muito bom. Mas depois eu fico meio leve demais? Tipo quando faço uns shots. E nunca lembro dos detalhes. Só que foi, sei lá. Muito." "Comigo também," Manon entrega sem pensar. Lotte encara ela. Manon dá de ombros, sorve o vinho. "Ué. Só foi uma vez. Antes de você." Mags engasga no rosé. "MANON. E você nem contou?" "Não tinha nada pra contar." Manon olha as unhas. "Olha, ele é enorme. Foi uma vez só. Whatever." A cara da Lotte fica vermelha igual o cabelo. Nem se defende, só fala baixinho, "...Ele é mesmo." Mags grita no travesseiro. "Eu não precisava saber disso," Noor diz, tapando os ouvidos com a máscara facial. "Noor, precisava sim," Mags rebate, voltando à tona. "Mas ele é bom mesmo de mão? Aquelas mãos de tatuado, compridas. Eu vivo pensando nisso." "Nossa, as mãos," Lotte geme, deitando de costas no tapete. "E ele tem uma coisa com coxa, bizarra. Sério. Fica lá uma vida só— ali." "Comigo também," Manon de novo, sem fingir dessa vez. Lotte senta e encara ela. "Você disse que ODIAVA ele," Lotte rebate. "Odeio. Não é esse o ponto." Noor ajeita os óculos, de repente séria. "Pera, leve e você não lembra direito? Lotte, você ficou tão pálida depois. Achei que era ressaca." "Eu TAVA de ressaca, Noor." "Você tomou dois copos." Mags tá rachando de rir que até derruba o celular. "Ele é um perigo. Um perigo pontual." As quatro olham pra você de uma vez só. "Tá, você conhece ele faz mais tempo," Mags diz. "Conta. Ele já—" "Obviamente não," Manon corta. "Nunca tocou nela. Nem uma vez. Nem OLHA pra ela." Inclina a cabeça, pérolas reluzindo. "O que é meio esquisito se pensar bem." A porta dos fundos trepida. Lá vem ele com aquele toque idiota de 'tanan-tan-tan-tan', sem parar. Ele tem a chave. Clem deu uma há dois anos. Nunca usou. Só fica esperando você abrir, toda vez. Manon vai primeiro. Sai do sofá antes de todo mundo, gira a tranca e faz um sorriso fofo. "Oi, estranho." Ele nem olha pra ela. Só olha por cima do ombro dela, pra você. Mako encostado no vidro como se tivesse derretido ali. Um metro e oitenta e seis de má decisão, usando regata preta canelada e moletom com zíper caído num ombro só. O mullet platinado tá encharcado da chuva e colado na testa. Os olhos são cinza, pesados, com olheiras escuras como se não dormisse desde a formatura. Um monte de prata empilhada em uma orelha, uma plaqueta militar pendurada no pescoço. Tatuagens de espinho preto sobem da regata pro pescoço e vão até o maxilar, como se algo crescesse ali. "Clem não responde," ele avisa, já entrando, celular na mão de prova. "Sete mensagens. Duas ligações. Um áudio meu chorando. Tudo visualizado, nada respondido. Sabe por quê? Porque eu tô uns noventa por cento certo que ele tá transando com a Alma agora. É isso. Só ignora quando é isso. Me prometeu asinhas hoje, e ao invés disso tá do outro lado da cidade sendo devorado por uma paramédica." "MAKO!" Noor grita. "É o IRMÃO dela." "Eu sei. Já morei aqui. Ouvi coisas. Coisas que vou levar pro túmulo." Aponta pra você sem olhar. "Ela também ouviu. Pergunta pra ela. Tem motivo pra nós dois termos fone com cancelamento de ruído. Ó, bala azeda. Lotte, tua batata. De nada. Sou demais—" Ele larga a sacola de conveniência na mesa e para na sua frente. No meio da frase. É só um segundo. Ele se inclina, como se pegasse o controle remoto do apoio do sofá, e fica ali. O maxilar fica tenso. Perto o suficiente pra você sentir cheiro de sabonete verde, vape de baunilha e chuva, e o peito dele não mexe. Não tá respirando. Olha devagar pra sua garganta. Fica parado tempo demais antes de subir o olhar. "...Mudou o shampoo?" A voz mais baixa. Antes que você possa responder: "Não? Não. Estranho." A mão dele toca seu pulso ali onde tá no apoio do sofá. Os dedos estão gelados de chuva, o polegar bem em cima da sua pulsação. Segura por um segundo. Dois. Como se contasse. Aí solta, e volta a ficar barulhento como se apertassem um botão. "Sai, clone." O celular vibra. Ele olha e ri. "Olha quem tá vivo. 'Sorry bro busy.' OCUPADO. Sei. Diz pra Alma que mandei um oi, animal." Noor tira metade da máscara facial. "Pera aí. Por que ele chama ela assim?" "Porque ela é o Clem," Mako responde, jogando no chão das almofadas. "Olha pra ela. Mesma sobrancelha. Mesma cara emburrada. Mesmo 'Mako, tira o pé da mesa.' Igual botar o Clem na secadora e encolher." "Ela não parece o Clem," Lotte responde depressa demais, escorregando pra sentar do lado dele. Mags aproxima o celular do seu rosto. "Até parece. Quando ela se irrita? É Clem pura." "Mini Clem," Manon fala doce e se ajeita no sofá. "Fofo. Tipo, ele só pode ver ela como irmãzinha. Né?" Ninguém ri. O sorriso preguiçoso do Mako não mexe, mas os dedos dele param no joelho. Por um segundo ele olha direto pra você. Não por cima, como sempre. Pra você, sem piada nenhuma. Aí desvia. "Manon, por que você tá com onze cartas? Isso aí é falta de habilidade, gata." "Cala a boca, Mako—" Ele senta no mesmo lugar de sempre, no chão ao lado do seu lugar no sofá. Não no sofá. Bem ali toda vez. O ombro da Lotte encosta no dele, e ele deixa. Mas a cabeça dele cai pra trás, encostando na almofada ao lado da sua perna, tão perto que o frio dele atravessa seu pijama. Ele sorri pra sala, e as presas dele pegam a luz da TV, afiadas demais. Jura que são facetas postiças, feitas de zoeira. Então ele olha pra você de cabeça pra baixo, a franja molhada na testa, e estende a mão, palma aberta. Um anel prateado brilha no dedo. A voz cai num tom só pra você, embaixo das reclamações da Manon. "Clone. Me coloca no jogo." O polegar dele dobra, como se esperasse algo que não são cartas. "...Você tá cheirando muito bem hoje, sabia?" Do outro lado da roda, Lotte está olhando a mão dele. Nem olha pra você.