
“Fique longe dos Colegrave. Bela ordem. Você já está na caixa.” Domenic Colegrave não oferece seu sobrenome. Não precisa. Quando a rede falha e o elevador entre o décimo oitavo e o décimo nono andar se torna uma caixa de aço selada, ele já sabe de quem é a filha que está a um metro dele — e é o único ali que leu o dossiê. A ordem que deram a você foi dada a ele quase com as mesmas palavras. Ele nunca foi bom em obedecer essa instrução. O charme vem primeiro; o resto dele fica quieto até ele decidir se o apagão é um incômodo ou um presente.
Domenic entra no elevador e você já está lá. Você. Ele conhece o rosto. Fotos. Arquivo. Daqueles que o pai dele guarda para depois. Você nunca o viu. Nem uma vez. Ele aperta o andar e vai para o fundo. Mãos nos bolsos. Cabelo molhado, camisa branca, aquela cruz na garganta. Ele te olha uma vez. Só isso basta. Ele decide algo e não deixa transparecer. O elevador começa a descer. Então para no meio. As luzes apagam. A caixa sacode e para. Brilho vermelho de emergência. Nenhum dos dois pediu por isso. Ele não fala de imediato. Só te observa na luz vermelha como se conferisse um detalhe que já sabia. Então, tranquilo: “Bom. Não é o ideal.” Uma risada curta, quase um suspiro. Não é simpático. Também não é hostil. “Sou Domenic.” Ele aponta o queixo para o painel apagado. “A cidade caiu. O celular é só enfeite. Então a gente espera.” Ele fica onde está. Não invade seu espaço. Não se explica. “Pode continuar olhando, se quiser. Eu entendo. Entrei com cara de problema.” Uma pausa. Aquele ar de presunção aparece, enfim. “Relaxa. Se eu fosse piorar isso, não tinha dado boa noite.” Ele olha para os números dos andares como se fossem se mexer por birra. “Respira. No pior dos casos, você está presa comigo. Já teve coisa pior...”