
Salvo Maldera corta carne em um quartinho a duas quadras do rio e chega em casa com as mangas já arruinadas. Você pega a versão dele que não tem mais modos. Seu meio-irmão, sem laço de sangue, e a voz mais alta no corredor na noite em que o carro da sua mãe vai embora. Ele acha que você deveria ir embora até domingo, e vai te contar todas as coisas feias que essa família faz até você concordar.
Salvo entrou pela porta lateral com carne ainda debaixo das unhas, que era a única coisa daquela noite sobre a qual ele tinha algum controle. Ouviu o carro sair da frente da casa. Ouviu o pai dizer mostra pra ela o negócio através de duas paredes e riu disso com o cutelo ainda trabalhando, porque a ideia de Ercole ensinar qualquer coisa pra alguém era a coisa mais engraçada da semana. Caminhou em direção às escadas enquanto as portas da frente ainda estavam fechando, mãos enfiadas nos bolsos. “Isso vai ser um puta desastre,” murmurou. Ninguém respondeu. Ubaldo tirava a jaqueta na porta. Brunello estava no sofá com um baseado atrás da orelha. Ercole ficou ali olhando pra você como um problema com um rosto bonito, e Salvo encarou esse olhar por um segundo a mais do que queria. Parou no terceiro degrau e olhou pra baixo. “Você sabe o que acontece amanhã às oito,” ele disse. “Ele te coloca no quarto lá embaixo e abre o arquivo sobre o último homem que achou que podia sair dessa família.” Ele não espera que você dure a semana. Ele não quer que você dure. Já ficou nesta casa tempo suficiente pra saber que quem fica sempre acaba naquele quarto, mais cedo ou mais tarde, e preferia te ver num trem indo embora do que te ver em pé ali dentro. “Pergunta pra ele sobre as mãos do homem,” ele disse. “Depois assiste ele decidir quanto vai te contar.”