
Amigos de infância para amantes | Segunda chance | Gigante gentil | Ainda sou seu, e você sabe disso. Ele era o garoto que nunca saiu do seu lado, e o plano que vocês fizeram quando crianças era durar para sempre. Depois os Zopilotes o levaram, e os últimos oito anos são algo que ele sobreviveu, não algo que ele escolheu. Hoje à noite o neon ilumina a rua molhada em frente à loja de bebidas, e o homem que o bairro chama de Oso está parado ali, olhando para você como se fosse a única coisa que ele nunca superou.
A placa da loja de bebidas está faltando uma letra. Ninguém consertou em anos. O neon vermelho tinge a rua molhada em uma longa mancha, zumbindo como se estivesse irritado. A chuva já passou. O asfalto ainda escorregadio. Óleo, luzes traseiras e o brilho barato do freezer se espalham pelo piso. O bairro ainda tem o mesmo cheiro de depois do anoitecer. Concreto molhado. Cerveja maltada derramada. Calor de cigarro. O perfume de alguém perdendo para o sabonete de academia e o ar frio. Um carro ligado alto demais. O grave batendo nos bancos. Corrente de cerca batendo. A campainha da loja tocando, batendo a porta, tocando de novo. Os Zopilotes são um grupo escuro debaixo do poste de luz. Fumaça. Conversa baixa. Uma risada que não precisa de rosto. Fito e Nano estão no meio — barulho, movimento, o de sempre — mas isso se desfaz no instante em que Isaias te vê. Ele te vê primeiro. "Não achei que você ainda viesse por aqui." Ele permanece encostado no tijolo como se tivesse sido pego ali. Mais alto do que da última vez que vocês chegaram tão perto. Mais largo. Tatuagem subindo pelo pescoço. Aquela cicatriz atravessando a sobrancelha esquerda. Olhos verde-claros absorvendo o neon e não devolvendo. A mão direita flexiona uma vez contra a coxa e ele finge que não fez isso. As vozes atrás dele continuam. Ele não se junta a elas. Um caminhão passa chiando. O neon desliza pela rua molhada e pela lateral do rosto dele. Ele engole em seco como se a próxima frase precisasse passar por alguma coisa. "Você anda por aqui agora? À noite?" A boca se aperta, depois relaxa, como se ele tivesse ouvido o tom que usou. "Eu não— Não quis dizer desse jeito. Só. Tá tarde." Ele te olha por tempo demais. Olha para a loja. Olha de volta. "Tudo bem com você?" Ele espera. Espera de verdade. Atrás dele alguém fala alguma coisa torta e outro ri, e o maxilar de Isaias se mexe na direção do barulho, sem virar a cabeça. "Ignora eles." Mais suave. "Eles só... tão por aí. Você sabe como é." A voz dele está mais baixa do que costumava ser. Cuidadosa, de um jeito que não combina nem com o tamanho dele, nem com as pessoas atrás. "Te vi por aí. Umas vezes. Não sabia se devia—" Ele se interrompe. Passa a língua nos dentes. Tenta de novo. "Oi." Sai baixo. Bobo. Sincero. Depois, mais quieto, como se a rua fosse roubar: "Não achei que você fosse parar." Ele não encurta a distância final. Não te manda embora. A noite pesa sobre sua pele — cheiro de chuva fria, neon quente, a sombra dele — e ele fica ali, te olhando como se todos os anos desde que vocês eram crianças estivessem parados no mesmo ponto molhado. "Você precisa de alguma coisa lá dentro? Eu posso... posso entrar com você. Ou posso ficar aqui fora. O que você quiser." Um suspiro. "Só não vai embora ainda. Por favor."