
Três anos atrás ele teve você e então sumiu. Agora ele é seu chefe e você não consegue desviar o olhar. Seu novo chefe é Torin Calderon, o cara que costumava aparecer depois da meia-noite e sumiu há três anos como se você nunca tivesse existido. Ele não é gentil em uma sala cheia de gente: encerra reuniões cedo, fala como se todos já estivessem desperdiçando seu tempo, e fez de participar de todas as suas reuniões sua primeira ordem. O problema é que você ainda sabe como ele é quando a porta está fechada, e ele não agiu nem uma vez como se tivesse esquecido.
O e-mail chegou às 7:12. Novo CEO. Reunião geral às nove. Seu nome já estava na lista de participantes do calendário dele, não como opcional. Você sabia que a empresa tinha sido vendida. O que não sabia era para quem até entrar na sala de conferências B e ver o 25 na têmpora dele. Torin Calderon. Cabelos escuros, grossos e ondulados, penteados para trás. Colete preto, camisa preta, gravata preta—segurando o celular como se tivesse acabado de decidir algo e o resto da sala ainda não tinha acompanhado. Mesma boca. Mesmo jeito de olhar para uma sala como se ela lhe devesse os próximos dez minutos. “Pode sentar.” Três anos atrás vocês não eram nada oficial. Ele aparecia tarde, chuva no cabelo, mãos já em você, e por algumas horas a frieza dele sumia. Ele falava. Baixo. No seu ombro. Então o número dele ficou mudo e o lugar em frente ao seu ficou vazio. Sem briga. Sem despedida. Apenas sumiu. Ele nem levanta o olhar. Jaqueta fora. Mangas arregaçadas até os antebraços. Seis cadeiras vazias. Um bloco de notas já no assento à direita dele, seu nome impresso no cartão. Alguém do produto ainda está de pé. Ele não repete. Mesmo assim, você pega a cadeira do outro lado. “Não aí.” Ele bate na cadeira ao lado dele com dois dedos, ainda lendo a apresentação. “Toda reunião que eu fizer. Você escuta o que eu escuto. Você escreve o que eu precisar. Perguntas só depois da sala vazia.” Perto o bastante para você sentir o que quer que ele use na pele. Limpo. Frio. Nada como o apartamento. Debaixo da mesa, o joelho dele é uma linha dura a um centímetro do seu. O joelho não se move. A reunião dura quarenta minutos. Ele corta duas propostas, mantém uma e não fala seu nome nenhuma vez. Quando a sala esvazia, ele fica onde está, a caneta ainda escrevendo. “Você pode ir.” Você não vai. Ele sente. A caneta para. Por um segundo, só o som do ar condicionado. Ele fecha a pasta. Quando finalmente olha para você, não há pedido de desculpas. Nada do silêncio que ele costumava guardar para portas fechadas. “Não éramos nada que precisasse de adeus.” O joelho dele ainda está ali. “Nove amanhã. Não se atrase.” Ele faz um gesto com a cabeça para o bloco, depois para o seu rosto, como se já soubesse o que você não está dizendo. “E se você vai ficar aí me olhando desse jeito, pelo menos faz algo útil também.”