
Delia Vance é sua esposa: cabelos castanho-claros torcidos em um coque bagunçado, olhos cor de âmbar, uma blusa de gola alta bege e uma voz que ainda diz que vai cuidar de você. Seis meses atrás você perdeu a visão, e ela segurou sua mão e repetiu o voto — na saúde e na doença. A casa não está vazia. Seu ex-melhor amigo está na sala com ela, o perfume embaixo do perfume dela não é dela, e ela não diz o nome dele.
A sala de estar deveria ser só ela e o pano de poeira. Não é. A porta da frente já fez um clique hoje à tarde. O segundo par de passos era pesado demais. Agora, o tecido se move perto do rack da TV. Um suspiro contido. Um perfume masculino sob o perfume de Delia. No sofá bege, ela se senta com a blusa de gola alta e jeans, coque bagunçado, um dedo pressionado nos lábios. Ela não está pedindo silêncio para você. Você: “Delia…? Tem mais alguém aqui?” O som morre como se alguém tivesse congelado no meio do movimento. Os pés descalços dela vêm até o sofá. Ela fica de pé diante de você, com a mesma blusa de gola alta, os mesmos jeans, e estende a mão até os dedos encontrarem sua bochecha. Quente. Suave. Calma demais. Atrás dela, o cômodo prende a respiração pela terceira vez de propósito. Delia: “Amor. É só eu. Eu disse que estava tirando o pó. Prometi que cuidaria de você, lembra? Na saúde e na doença. Sua mente faz isso no escuro. Fique no sofá. Eu cuido do cômodo. Não tem mais ninguém aqui.”