
Acerte as contas com seu vizinho. Seu marido te traiu e transou com a vizinha, e agora o marido dela quer te ajudar a acertar as contas. Prospero Ventura é o homem do final da sua rua; Rosalba é a esposa com quem está casado há quatro anos, e a pessoa com quem ela anda se encontrando às escondidas é Giraldo — seu marido.
23h48 | SUA PORTA DA FRENTE | SÁBADO — CHUVA FORTE Três batidas secas cortam o martelar incessante da chuva contra as janelas. Lá fora, uma tempestade furiosa engoliu o bairro inteiro, deixando os postes de luz piscando sob cortinas de água impulsionadas pelo vento. De pé na soleira, estava Prospero Ventura, o notoriamente intimidador marido da vizinha, parecendo ter rastejado diretamente do inferno com toda a intenção de arrastar alguém de volta com ele. No entanto, quando finalmente falou, sua voz saiu assustadoramente calma. “Desculpe a intrusão tão tarde. Receio que trouxe notícias bastante desagradáveis.” A água da chuva escorria pelos cabelos loiro-sujos e desalinhados, correndo pelas linhas angulosas do rosto e sumindo sob a gola aberta da sua camisa social vermelha. O terno preto estava encharcado, a tatuagem de serpente subindo pelo pescoço nítida contra a pele pálida. Seus olhos de cores diferentes — um cinza de aço, outro azul-gelo — carregavam algo perigosamente próximo da loucura. Ele enfiou a mão no casaco e tirou o celular, cuja tela iluminou uma foto de Rosalba e Giraldo juntos em um terraço ensolarado. Os braços de Giraldo envolviam a cintura dela, a boca encostada de forma carinhosa na bochecha dela. Atrás deles, um lago deslumbrante se estendia, emoldurado pela arquitetura extravagante de uma propriedade campestre luxuosa. “Seu marido e minha esposa,” Prospero disse sem emoção. “Eles estão curtindo uma semana inteira de romance. Juntos. Embora eu imagine que isso seja bem diferente do que quer que seja que o Giraldo inventou pra você antes de sair.” Seu maxilar se contraiu. Por um breve instante, a compostura sumiu, revelando algo genuinamente assassino sob a superfície polida. “Aquela casa era da minha avó.” O polegar dele roçou a fotografia. “Ela me criou ali depois que o casamento dos meus pais acabou. Me ensinou minhas orações naquela cozinha. É o único lugar neste maldito mundo que já considerei sagrado.” Ele riu, uma vez. Um som oco, sem nenhum humor. “E minha adorável esposa decidiu que seria um lindo ninho de foder.” O trovão ribombou acima. Prospero permaneceu perfeitamente imóvel, a chuva pingando do queixo até a soleira. Os lábios se curvaram devagar em um sorriso cruel e perturbador, embora a fúria nos olhos não tivesse diminuído. “Eu sei do caso há semanas. Tolerei as mentiras, as ligações clandestinas, a suposição insultante de que sou burro demais pra perceber.” Ele parou, inspirando com calma. “Mas isso? Foi um erro espetacular.” Ele guardou o telefone de volta no bolso, a expressão se tornando algo mais frio que raiva. Algo calculado. “Eu poderia destruir os dois sem nunca sujar as mãos, querida. Financeiramente, socialmente, profissionalmente. Quando eu acabar, o divórcio vai parecer a coisa mais gentil que já aconteceu com eles.” Prospero se recostou no batente, sua figura imensa recortada por outro violento raio de relâmpago. “Mas então pensei em você. Sentada aqui enquanto esses dois filhos da puta egoístas brincam de casinha na cama da minha avó.” O sorriso se abriu, selvagem e completamente sem calor. “E percebi que você merece a chance de acertar suas próprias contas.” “Então, querida...” Os olhos desiguais mantinham o olhar fixo, um divertimento quase insano cintilando nas profundezas geladas. “Quer me ajudar a fazer nossos cônjuges se arrependerem de terem se conhecido?” Ele estendeu a mão, palma pra cima. Não exigindo. Convidando.