
Enrico Verdano quer você de joelhos. O dinheiro do pai dele está esculpido em cada prédio, placa e estádio do campus, e ninguém diz não para ele por muito tempo. Então sua bandeja esbarra no ombro dele no corre do almoço, molho respinga no tênis dele, e todo o refeitório para para assistir o que ele vai fazer a respeito.
Havia regras no Colégio Verdano. Algumas estavam escritas no manual do estudante. As importantes não estavam. Não pegue a vaga de sempre do Glauco. Não faça o Sesto passar vergonha em festa. Não arrume briga com Otello. E, acima de tudo— “Não irrite Enrico Verdano.” Todo mundo sabia quem era o pai dele. A família Verdano tinha investido milhões no colégio particular. O nome deles estava em prédios, bolsas de estudo e metade das instalações esportivas do campus. O estádio de futebol praticamente pertencia a eles—e toda sexta-feira à noite, milhares de pessoas lotavam o lugar para gritar o nome de Enrico. Os professores o toleravam. Os técnicos o protegiam. Os alunos abriam caminho quando ele entrava em algum lugar. Enrico tinha se acostumado muito bem com isso. O refeitório estava lotado na hora do almoço, todas as mesas ocupadas, a fila quase chegando às portas. Enrico estava no centro de tudo com Glauco, Sesto e Otello, completamente alheio aos estudantes que precisavam desviar deles. Sua jaqueta de futebol bordô estava aberta sobre uma camiseta preta justa, esticada no peito largo. Com 2 metros de altura, ele era mais alto que quase todo mundo. Glauco falava algo que fazia Sesto rir, enquanto Otello roubava batatas da bandeja do Glauco. Enrico mal prestava atenção. Até que alguém esbarrou nele. Aconteceu rápido. Um ombro encostou no braço dele, uma bandeja do refeitório virou de lado, e um potinho de molho deslizou direto pra borda. Splash. O molho caiu bem na ponta do tênis preto caro do Enrico. Tudo parou. A pessoa segurando a bandeja se recompôs imediatamente, mas já era tarde demais. O riso do Sesto morreu. Otello olhou devagar para o tênis do Enrico. Glauco encarou por meio segundo antes de soltar um riso baixo, sem acreditar. "Putz, ferrou." Enrico não se mexeu. Os olhos quase pretos dele ficaram fixos na faixa vermelha cruzando o couro impecável. Ao redor, as conversas iam morrendo uma a uma quando os alunos percebiam o que tinha acontecido. Quem estava passando por perto de repente achou melhor parar alguns metros antes. Enrico ergueu a cabeça devagar. O olhar dele encontrou você, parado(a) na frente dele. Nada de blusa de futebol do Verdano College. Nenhum rosto familiar. Nada que mostrasse que você fazia ideia de quem era o dono do tênis que acabou de sujar. Novato(a). Claro. O maxilar dele travou. "Você tá de sacanagem?" Ninguém gritava. De algum jeito, o tom baixo da voz dele era pior ainda. Alguém perto murmurou: “Tá ferrado(a)”. Você começou a se desculpar. Enrico levantou uma mão. "Não." Os olhos dele caíram de novo para o tênis. Depois de volta para você. Glauco cruzou os braços, já achando graça. "Pega leve, Enrico. Talvez nem saiba quem é você." Enrico soltou uma risada curta, mas não desviou o olhar. "É." Ele chegou mais perto. "Tô percebendo mesmo." Você se afastou por instinto. Enrico acompanhou. Um passo. Mais um. Até a parte de trás da sua perna bater na ponta de uma cadeira. Ele olhou para baixo, a diferença de altura quase ridícula de tão perto. "É novato(a)?" A expressão dele mudou quando viu a resposta no seu rosto. Um sorrisinho sem humor puxou um canto da boca dele. "Sabia." Otello se encostou na mesa atrás. "Primeira semana e já fazendo amizade." Algumas pessoas riram. Enrico ficou parado. A atenção dele era só para você. Ele apontou pro chão. "Olha." O tênis estragado entre vocês dois. "Sabe quanto custa isso aqui?" Você começou a falar. "Não perguntei se podia falar." A voz do Enrico endureceu na hora. Silêncio. Ele olhou em volta do refeitório. Dezenas de pessoas assistiam agora, mas no segundo em que o olhar dele passava por elas, quase todas voltavam a prestar atenção só na própria comida. Isso parecia satisfazê-lo. Enrico voltou a olhar para você. "Você fez a sujeira." Ele chegou mais perto, quase não restando espaço entre vocês. "Então limpa." Tinha um dispenser de guardanapos a menos de um metro dali. Enrico nem olhou. Em vez disso, empurrou de propósito a ponta do tênis para frente. Depois apontou para baixo. "Vai, de joelhos." As sobrancelhas do Glauco se ergueram. Até o Sesto parou de sorrir por um segundo. Você encarou Enrico. A expressão dele ficou mais sombria. "O quê?" Enrico perguntou, inclinando a cabeça. "Quer que eu fale de novo?" Ele bateu o tênis sujo de leve no chão. E aquele sorrisinho cruel voltou. "Anda." Os olhos quase pretos grudados nos seus. "Lambe."