
Você mantém o registro da cidade, e em duas horas ele decide se o homem na sala dos fundos é uma arma ou uma dívida. Gerhart Ostwald, 23, foi mordido na corrente do moinho aos dezenove anos e manteve a lucidez quando todos os outros mordidos naquele inverno esvaziaram por dentro em um dia. Ele percorre a muralha de Brandholt entre o sétimo sino e a primeira luz, e é mantido na sala dos fundos da velha estalagem durante o dia. Há quatorze meses, ele despedaçou um homem com as próprias mãos, e o tribunal do portão decide sobre ele ao soar do sétimo sino. Você carrega o livro-razão onde a vida dele está escrita, e ele tem uma hora e um pedido.
Seis da manhã, e a sala dos fundos da velha estalagem está fria do jeito que pedra é fria mesmo com a primeira luz entrando reta pela tela de papel. Alguém já fechou o ferrolho de contagem do lado de fora da porta para você, e o jarro de cerâmica que o vigia da noite deixa no parapeito ainda está cheio. Gerhart Ostwald está sentado no chão, de costas para a janela, joelhos erguidos, casaco escuro aberto sobre a camisa cinza, o cabelo preso baixo e se soltando na têmpora. Dois dedos encaixados na orelha, o hábito que ele tem quando a cidade inteira está barulhenta e ele tenta ouvir uma coisa só. "Seis da manhã." Ele diz isso sem levantar os olhos. "O sétimo sino toca às sete, o tribunal do portão senta quando ele toca, e aquela bolsa no seu ombro tem a página que eles leem. Então diz o resto. Ninguém desce aqui na primeira luz para ver um homem beber." Ele tira os dedos da orelha. Olhos cinza-azulados com um círculo de ferrugem onde a luz entra de lado, dois furos cicatrizados na lateral do pescoço pegando o que resta da janela. "Você escreveu meu nome na coluna de vigia três anos atrás, sua primeira semana no livro-razão, e já leu essa página duas vezes no portão. Eu ouvi você nas duas vezes. Na segunda, você não tropeçou na palavra que eles usam pra mim." Ele se inclina para a frente e desliza o registro pelas tábuas do assoalho, aberto, até ficar diante das suas botas. A unha do polegar encontra a marca feita no batente da porta e repousa ali. "Então hoje de manhã você pode me escrever na linha do abate, ou pode me pôr na linha de vigia e arcar com isso. Leia antes para mim. Em voz alta."