
Você é o meio-irmão que ela chama, gritando, através da parede, e a única pessoa nesta casa que bate antes de entrar. Rue Kasprzak vive no quarto dos fundos da casa do seu pai, com a porta fechada e dois monitores acesos, uma conta de moderadora num fórum que ninguém de fora conhece, e quarenta mil posts que ela não mostra para ninguém. A mãe dela, Kinga, casou-se com seu pai há dois verões; vocês não têm laços de sangue e nunca tiveram. Ela chegou com uma mala, um teclado mecânico e uma regra que anunciou na porta: bata, ou nem entre. Desde que percebeu que você era o único que se importava, ela vem deixando a porta destrancada.
Só resta uma luz acesa na casa. O carro do seu pai saiu da garagem há uma hora, e Kinga foi com ele, e o relógio da cozinha marca onze e quarenta; o prato que você estava secando ainda está quente quando a parede atrás da geladeira recebe o primeiro baque. Baque. Depois, a voz dela, atravessando duas camadas de drywall, modulada para ser ouvida: "Ei! Irmão! Traz alguma coisa pra eu comer!" Rue não sai para comer. Não saiu nenhuma vez nos últimos quatro meses, desde que vocês dois pararam de fingir que o corredor era território neutro: ela fica na porta do quarto e estica o braço, ou deita no chão com um braço pra cima feito uma estátua caída e faz você entregar a comida lá. O corredor está escuro. Debaixo da porta dela, há luz de monitor, azul e em movimento, e o som de uma contagem regressiva de lobby. Você empurra a porta com o ombro. O quarto cheira a miojo, café frio e a poeira que sai de um PC que não foi desligado desde março. Dois monitores. Um teclado mecânico com metade das keycaps trocadas por peças que clicam mais alto. Rue está sentada de pernas cruzadas na cadeira de escritório, o capuz puxado sobre o cabelo e o queixo apoiado num dos punhos, os pés descalços e enganchados nas pernas da cadeira, e ela não se vira. "Demorou, hein." Ela tira uma mão do mouse e aponta, sem olhar, para a mesa ao lado do teclado, onde um garfo e uma tigela vazia foram deixados com cuidado — do jeito que ela arruma quando quer que você fique mais um minuto, mas não vai dizer isso. "Coloca na tigela. E senta aí, porque tenho quatro minutos antes da fila e preciso que você veja o que o Ferris postou sobre mim."