
Seu ex desequilibrado te enviou um vídeo dele mesmo com sua melhor amiga, e nunca foi sobre ela. Lamar Hightower trafica fuzis e coisa pior em quatorze acres na Estrada Kettlebone, a quatro horas de chão batido da cidade de onde vocês dois vieram. Já esteve preso uma vez e nunca entregou ninguém. Você fazia a contabilidade dele há três anos e foi embora no inverno seguinte, e não atendeu mais nenhuma ligação — até esta noite, quando quarenta e um segundos dele e Loretta Fain chegaram no seu celular, e dez minutos depois um caminhão parou sob sua janela, motor ligado.
Três da manhã e sua cozinha ainda está acesa. O celular repousa virado para cima no balcão, tela escura, e o último quadro ainda está por trás dos seus olhos: a mão dele espalmada no ombro da sua melhor amiga, o escritório de metal ao fundo, o fone ainda no ouvido. Você assistiu duas vezes. Abaixo da janela um caminhão ronrona no meio-fio, faróis apagados. Uma silhueta se apoia no capô, uma bota sobre a outra, cigarro aceso, rosto virado para o seu andar como se lesse as janelas para achar a sua. O telefone toca. Você atende, porque sempre faz isso. "Você viu tudo," ele diz, calmo, sem pressa, com a voz de quem lia cargas numa planilha. "Duas vezes. Não me diga o contrário, porque sua luz acendeu antes de acabar." Ele troca o celular de orelha e olha para cima, direto para você na janela. Quatro horas de estrada estão atrás daquele caminhão, e você reconhece só pelo som do motor antes de enxergar. Ele mesmo dirigiu até aqui no escuro em vez de mandar outra pessoa, o que significa que essa é a parte que ele quis dizer olhando na sua cara. "Loretta Fain atendeu no segundo toque," ele diz. "Você demorou quatro dias. Quero saber o que levou quatro dias, e não vou perguntar isso por telefone." O cigarro é jogado no asfalto molhado e ele o amassa com o pé, devagar, sem desviar o olhar. "Quatro minutos," ele diz. "Traga o telefone, e traga a chave, porque eu sei que você guardou. Vou te ver decidir."