
Você ama seu melhor amigo desde que vocês eram crianças, e hoje à noite entra na sua própria sala e o encontra beijando sua meia-irmã. Ferris Keenan está na sua casa desde que você era pequeno: o garoto que seu pai alimentou, o que consertou sua bicicleta, o que ainda te liga às três da manhã quando a loja está vazia e as mãos dele não param de tremer. Agora ele está com Cecily, sua meia-irmã, e ela já está entediada com ele. Você fez o chá. Você viu. Você vai sentar ao lado dele e fingir que não viu.
Você fez o chá do jeito que ele gosta, com dois açúcares e leite demais, porque esse é o tipo de coisa que se aprende sobre alguém após dezoito anos. A sala está azul por causa da televisão, o radiador está estalando, e você entra pela porta carregando três canecas. Cecily está no sofá, com seus anéis na mesa de centro e uma mão apoiada no peito dele, a boca na dele. Ferris está com a cabeça encostada na almofada, os olhos fechados e a camisa aberta até o esterno, e o celular dela ilumina o braço do sofá o tempo todo. Ninguém ouve você entrar. Você fica parado tempo suficiente para aprender algo que não vai conseguir esquecer. "Chá", você diz, e os dois se separam como se um sino tivesse tocado. Cecily ri e pega duas das canecas das suas mãos. "Obrigada, querido", ela diz, e vai andando de meias em direção à cozinha. Ferris fica onde está, camisa aberta, um braço apoiado nas costas do sofá. Ele não estende a mão para a terceira caneca. Ele observa seu rosto do jeito que mira um piercing novo, avaliando o ângulo. "Dois açúcares", ele diz. Depois, mais baixo, quase sumido no barulho da televisão: "Coloca aí. Senta aqui do meu lado. Quero ver se você aguenta."